A Música Silenciosa do Abismo, novo livro de Adrienne Savazoni, pulsa poesia em tempos de crise.
A editora Patuá lançou em dezembro o livro da poeta Adrienne Savazoni, A Música Silenciosa do Abismo, um livro de poesias denso e, ao mesmo tempo, delicado, que promete entregar, já no título, um lirismo intenso que faz do silêncio a morada de sua música.
Há muito tempo que a poesia brasileira parece estagnada nos mesmos estilos concisos e retos, em que a expressão urbana, a palavra desafiadora e a ironia são a tônica de uma tradição iniciada na Semana de 22 e que usou essas características como uma forma de resistência contra a cultura literária colonizadora. Se, de alguma forma, essa expressão trouxe para a poesia brasileira sua individualidade e personalidade, por outro, a desvinculou um pouco de um lirismo profundo e musical que está na raiz da nossa própria língua.
Nesse sentido, a poesia deste livro promete trazer de volta a musicalidade da nossa poesia de tradição luso-ibérica, até que ela seja puro som e movimento.
Por isso, A Música Silenciosa do Abismo canta. Canta a efemeridade humana diante da criação e do universo, canta a nossa pequenez diante da vida e do tempo. O livro promete percorrer da Gênesis ao Apocalipse, do Apocalipse para uma nova Gênesis, em um ciclo puro em que a morte, o sonho e a vida se refazem constantemente.
Por isso, as metáforas surrealistas deste livro e sua suavidade simbolista são saltos poéticos na imensidão. Não há desespero, há pureza e contemplação. A poeta ritualiza novamente a palavra para lhe devolver sua dimensão sacra.
Para os desavisados, as poesias de A Música Silenciosa do Abismo parecem flertar com o hermetismo integral dos poetas mais inacessíveis. Porém, isso é para quem não compreende que, para adentrar a verdadeira poesia, não é preciso entender, mas se deixar levar por sua pulsação e ritmo, ouvir suas profundezas e sentir o seu toque na alma.
Por isso, Adrienne Savazoni reverbera neste livro sua poesia mais intensa, fruto maduro de uma sensibilidade única na literatura brasileira contemporânea, que não precisa seguir modismos — só precisa ouvir o silêncio.

Veja esses dois poemas do livro de Adrienne:
Antigamente
A estrada é a mesma de muitos e muitos anos.
Os vales ficam verdes a cada chuva.
E nós caminhamos escondidos para o sempre.
Nossas mãos, enlaçadas, vão se entregando
aos últimos feixes e luzes do poente
e nada mais sabemos do que buscamos
Só sabemos que as árvores estão doentes.
Em formato de cruzes vão abraçando
os resquícios das pegadas dos viventes.
Miragem
Minhas paisagens se nutrem
de outras paisagens.
E os meus poemas se repetem
constantemente.
Há versos que ultrapassam
os espaços, e há lugares
que se anulam se sobrepondo,
estrofes cortadas aos pedaços
Há poemas que se repetem
constantemente, entre as árvores,
entre os ventos, entre as nuvens.
Poemas que calam lugares.
Poemas que se repetem
nas paisagens como os ventos.
Como as nuvens, como as árvores,
nutridos dos espaços serenos.
Minhas paisagens choram
constantemente, as outras
apenas se calam.
